Conto: “Jogos Noturnos”

É a segunda vez que noto um vulto me seguindo, isto só esta noite. Venho sendo seguido a semana toda, e cheguei a acreditar que meu perseguidor fosse realmente muito bom no que faz, mas assim que minha missão aqui se concluiu, não demorei para entender o que está me vigiando.

Sim, digo “o que” porque meu voyeur não é exatamente humano, e de fato foi a minha divisão de atenção o que me preveniu de detectá-lo antes. Por isso, assim que resgatei meu artefato, fingi continuar em sua busca, pois acredito que este espião — ou seu contratante — queria o mesmo que eu.

Então, hoje eu encerro meus assuntos nesta cidade. Detesto este calor, as ruas abarrotadas de gente, o barulho… mas estes serão providenciais esta noite. Parando numa esquina e esperando um carro passar, eu acendo um cigarro e, virando de costas para o carro apressado enquanto protejo o fósforo de ser apagado, me certifico que meu perseguidor continua no anzol.

Mas esse jogo fica cansativo logo. Eu paro bruscamente, dando ao meu perseguidor a impressão de que ele fora detectado. Jogo o cigarro fora e começo a correr, olhando para trás vez ou outra. Devo parecer convincente, pois as pessoas na calçada me olham como se eu fosse um maluco.

Quando já estou afastado o suficiente da comoção que causei, paro em frente ao boteco em que vim todas as noites esta semana, respiro fundo, olho em volta. Como alguém que conclui estar sozinho, resmungo alguma coisa e rio de mim mesmo, e então entro, como quem busca um drinque para acalmar o espírito. No entanto, cruzo o bar e vou direto para a porta dos fundos.
 
Ainda escutava o volume da música ambiente enfraquecendo com o fechar da porta quando comecei a me concentrar. Me escondo atrás de um container de lixo, coisa bem manjada. Um minuto depois, posso ver a sombra crescendo na parede oposta, na entrada da ruela. Parece que meu perseguidor está certo sobre onde estou e, como quem detecta uma armadilha, se recolhe. Ele resolve vir por cima do container. É lindo como ele não faz sequer um ruído, e nem o container cede ao seu peso. Mais lindo ainda é quando ele percebe que não estou realmente ali, mas na entrada da rua, acendendo outro cigarro, serenamente.

Ele tenta escapar, mas se vê preso. Minha sombra. Veja bem, o truque de usar sua própria sombra como guarda-costas é algo relativamente simples para qualquer Umbramancer, mas destacá-la e fazer com que ela persiga outra pessoa pela cidade é simplesmente genial! Claro, há limitações – sombras são menos eficientes durante o dia –, mas são silenciosas e facilmente camufláveis. Infelizmente, sombras não falam, então um interrogatório está fora de questão. Conheço alguns truques com sombras também, mas como o responsável por esta aqui parece ser bem experiente, terei que improvisar.

A sombra-espiã não para de se debater, e como todas as sombras tem a mesma força – que depende diretamente da intensidade da escuridão à volta – divido minha sombra em duas, cada uma segurando um dos braços da minha prisioneira, e agora a vantagem é minha. Tenho pouco tempo, então saco o mesmo artefato que a sombra vem espionando, a minha adaga lunar. É rústica e pequena, mas forjada sob circunstâncias muito especiais. A sombra sente isso, e quando aproximo a lâmina do que seria sua face, juro que a ouço sibilar…

Dentro de segundos está acabado. Eu liberto a sombra, que rasteja rapidamente para longe. Esta não se aproximará de mim tão cedo, mas o mais importante foi ter conseguido passar minha mensagem. Marquei um grande “K” na face esquerda da sombra, e onde quer que esteja agora, seu dono também será portador desta marca.
 
Meu recado é simples: “Não cruze meu caminho. Saberei quem você é.”

Hora daquele drinque. Estou ficando velho para estas coisas.

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