Diário de Design – O Lado Sombrio: Corrompidos pelo Poder

Para fechar o ano, deixo este post comentando o papel dos poderes em O Lado Sombrio. Embora a versão rascunho que postei trate apenas de pessoas comuns, a proposta de OLS sempre foi trabalhar com as mudanças que pessoas comuns passam após receberem poderes sobrenaturais.

Começo com este post, minhas divagações sobre a direção que estou seguindo. Ah, já recebi algum feedback em mais uma rodada de testes, e muito em breve trago alguns ajustes que estou rascunhando – em especial nas regras para Humanidade e Alienação.

HABILIDADES SOBRENATURAIS (em OLS)

O Lado Sombrio é um jogo sobre tentações, escolhas e suas consequências. Poucas coisas são mais tentadoras do que poder: um distintivo de autoridade, o poder sobre a vida daquele encarando o cano de sua arma, os empregados cujas subsistências dependem de sua boa vontade, ter dinheiro para satisfazer todos os seus caprichos, etc.

Nas histórias de OLS, este poder sedutor assume uma forma bem mais drástica: o poder de burlar as leis da física e realizar feitos simplesmente impossíveis (até então). São as lendas de pessoas comuns que, ao adquirem seus poderes, começam a perder seu próprio sentido de identidade ao ver sua personalidade sendo gradualmente corrompida pelo poder.

Compare com o acesso a armas de fogo. Dependendo do país, qualquer mané consegue uma pistola, e os jornais nos mostram diariamente que mesmo aqueles com o devido treinamento e permissão para portar armas muitas vezes não demostram o equilíbrio psicológico para entender o poder que tem em mãos. De policiais a criminosos pés-sujos, em momentos de estresse (e por vezes apenas por mero capricho), estes indivíduos fazem uso de suas armas sem pesar as consequências ou impacto emocional que imprimem nas vidas envolvidas. Imagine então que, ao invés de armas de fogo, estamos falando de pessoas capazes de disparar rajadas pelos olhos, erguer caminhões ou controlar mentes.

Muitos cenários com pessoas superpoderosas se concentram em pessoas tentando mudar o mundo após conseguirem seus poderes, seja ao se dedicarem a proteger ou trazer equilíbrio para a sociedade. Ou então tentar seguir com a vida e usar os poderes para melhorar a qualidade de vida ao elaborar novas tecnologias ou se tornarem celebridades instantâneas. Um diferencial nesta ambientação é o foco na vaidade dos protagonistas, seu complexo de deus. Vamos ver como os paranormais lidam com situações triviais mas extremamente irritantes como um grupo de amigos barulhentos dentro do cinema, assaltantes drogados, folgados que furam fila, mentiras descaradas, um chefe estúpido, e assim por diante.

Além das vantagens óbvias, todos os poderes trazem consequências psicológicas bastante significativas, tanto positivas quanto negativas. Quando um jogador escolhe um poder para seu personagem, ele precisa seguir 3 etapas, devidamente representadas pelas seguintes questões:

  • O QUE É O PODER? Descreva de forma simples e objetiva, como numa frase curta, o que o poder faz.
  • DE QUE FORMA O PODER MELHOROU A VIDA DAQUELE PERSONAGEM? Decida as mudanças positivas na postura de vida do personagem são consequências diretas do poder. Pense nos estímulos que fazem o personagem relaxar e curtir o poder.
  • O QUE MAIS PREOCUPA O PERSONAGEM REFERENTE AO SEU PODER? Decida as mudanças negativas consequentes do poder. Pense nos estímulos que fazem o personagem resistir à tentação de usar seu poder.

Na grande maioria dos casos, definir o efeito prático e o reflexo positivo no psicológico dos personagens será muito fácil. Parte da diversão é elaborar desafios psicológicos para expressar o impacto negativo. A seguir, confira alguns exemplos que ilustram melhor esta ideia.

Norah e Liz passaram suas vidas sendo abusadas e exploradas. Quando elas se percebem dotadas de ForçaInumana, capazes de socar através de paredes, erguer automóveis e rasgar placas de ferro com as mãos, sua autoconfiança vai às alturas. Elas sabem que nunca mais abaixarão a cabeça para abusadores e exploradores. Porém, Norah percebe o quão frágil é o mundo à sua volta – pessoas, mobílias, paredes, tudo parece quebrar muito facilmente – e agora se vê com receios de ter contato físico com outras pessoas, enquanto Liz tira grande prazer em usar sua força quando se sente contrariada, se tornando assim a abusadora suprema.

Marlon é capaz de Voar. Para ele, a sensação de liberdade é simplesmente indescritível: nunca mais se viu num engarrafamento e sempre que precisa de um tempo pra si, ele voa para além das nuvens e desfruta do silêncio. Por outro lado, ele agora se sente claustrofóbico; lugares pequenos parecem sufoca-lo, e estar amarrado significa a mais intensa angústia. Kelly também não se preocupa com engarrafamentos, já que pode se Teleportar para o destino desejado. Contudo, o que começou como um grande apetite por conhecer lugares distantes e exóticos, culminou em uma intensa saudade de casa, uma busca por estabilidade, toda vez que viaja.

Anne consegue Ler Mentes, o que a tornou muito mais confiante em interações sociais, mas ela agora se vê extremamente tentada a invadir a privacidade dos outros a cada oportunidade. Thomas também tem este poder, mas ele simplesmente se tornou intensamente blasé: ele sabe que uma pessoa típica geralmente mente pelo menos duas vezes a cada cinco minutos de conversa, e praticamente ninguém tem credibilidade para ele. E que tal Danielle, que fica tão sobrecarregada com os pensamentos dos outros se misturando aos seus (porque ela ouve tudo duas vezes!), que desenvolveu agorafobia?

Yuri também poderia ter uma curiosidade mórbida quanto aos segredos alheios, bastante apropriado ao seu dom de Invisibilidade, mas ao invés disto, ele é simplesmente paranoico em relação à sua própria privacidade: coisas corriqueiras como a atendente da cafeteria o reconhecer pelo pedido de sempre, ou um vizinho que o reconhece quando longe de casa, o deixam profundamente incomodado. Marcus pode se tornar Insubstancial, mas isto também o deixou paranoico sobre sua materialidade: quando conversa com as pessoas ele precisa toca-las constantemente, apenas para se certificar que ainda está ali.

Nadia e Artur têm Velocidade Inumana, e enquanto Nadia se tornou ironicamente preguiçosa, deixando tudo para ser feito no último minuto, Artur agora tem apenas resquícios de paciência, visto que todo mundo parece agir em câmera lenta o tempo todo.

Gabrielle é dotada de Sentidos Inumanos, e talvez justamente pelo fato de que seus sentidos terem alcance e sensibilidade inacreditáveis, ela se tornou bastante intrometida. Observar e escutar as pessoas ao seu redor (o que pode incluir muitas delas!) se tornou sua novela favorita.

Daniel tem a capacidade de Ver o Passado, o que lhe permite acessar informações impressionantes, mas ele costuma perder os detalhes mais óbvios.

Martha é capaz de Mudar de Forma, mas raramente o faz, pois desenvolveu um medo irracional de não conseguir voltar a sua forma original. Algo parecido acontece com Bruno, que é capaz de CriarIlusões. Acontece que às vezes ele não sabe o que é real ou não.

Matheus é praticamente Invulnerável, pois nada parece capaz de feri-lo. Como efeito colateral, sua capacidade de sentir foi abafada, e isto o tornou insensível em todos os sentidos; ele hoje não consegue se conectar emocionalmente com nada. Por outro lado, Wilson é capaz de regenerar ferimentos e amputações, o que o tornou perigosamente temerário, mas também masoquista: dor é o que lhe faz sentir normal.

Manuella pode Controlar Intenções, e é extremamente desconfiada quando as pessoas concordam com ela, pois fica com a impressão de que não foi espontâneo. Ela é uma das poucas pessoas do mundo que recebe de braços abertos alguém que discuta com ela.

Max é dotado de Inteligência Inumana, sendo certamente uma das mentes mais brilhantes de todos os tempos. Seu intelecto processa informações de forma tão rápida, que ele tem grande dificuldade em tomar decisões, visto que já calculou todas as possibilidades de consequência. Isto sem contar a dificuldade em aceitar opiniões de pessoas menos inteligentes.

*      *      *      *      *      *      *      *      *      *      *      *      *

Acho que dá pra ter uma noção, não é? Como já comentei, algumas regras já estão rascunhadas, mas ainda não estão consistentes o suficiente para compartilhar. Enfim, 2013 promete bastante novidade!

Boa virada a todos!

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2 comentários sobre “Diário de Design – O Lado Sombrio: Corrompidos pelo Poder”

  1. Eu também estou empolgado! Tenho uma ideia bem sólida do que espero que o jogo se torne, mas ainda tem muito chão pela frente. Uma coisa é certa, apesar de termos pessoas superpoderosas como protagonistas, este jogo não é sobre super-heróis, pelo menos não da forma como as revistas em quadrinhos e animações mostram.

    Acho que até é possível adaptar super-heróis icônicos, mas as histórias teriam um tom MUITO diferente.

    Como em janeiro estou de férias, vou tentar produzir (e compartilhar) o máximo possível!

    Abraço!

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