Criando Seu Mundo de Supers

Enquanto trabalho em organizar os detalhes para o cenário de O Lado Sombrio, fui atrás dos jogos que me inspiraram a começar algo meu, para ter uma noção de quais elementos precisam de mais atenção. São muitos os jogos que pegam o gênero super-heróis e dão um toque mais especial, fugindo um pouco das realidades que encontramos nos quadrinhos, e alguns destes estão entre os meus favoritos – como Aberrant da White Wolf (para o qual fiz um livreto traduzindo a linha cronológica e as regras do jogo anos atrás), mas geralmente as regras ou a direção que o cenário toma acabam me afastando, por nenhum outro motivo que pura falta de identificação.

Aberrant

Outro ótimo jogo que lida com o tema com grande propriedade é o Wild Talents, da Arc Dream, carro-chefe do sistema One-Roll Engine. WT é a versão moderna do primeiro jogo da linha, Godlike, no qual ‘Talents’ são pessoas com poderes especiais em plena Segunda Guerra Mundial. No livro básico para WT, um dos autores, Ken Hite (é, o mesmo responsável pelo Rastro de Cthulhu), traz um método bem interessante para codificar um cenário original envolvendo supers: ele usa um esquema com 4 cores (uma referência ao gênero dos quadrinhos) para apresentar 4 fatores que você pode levar em consideração ao pensar no seu cenário: (1) Inércia Histórica, (2) Inércia dos Talentos, (3) O Adorável e o Inútil, e (4) Clareza Moral.

 capa-wild-talents

E por fim, em um suplemento para Wild Talents chamado The Progenitor, desta vez escrito pelo próprio Greg Stolze (autor do sistema ORE e de Godlike), o autor oferece ainda outros 4 fatores a considerar ao pesar o impacto de pessoas superpoderosas no mundo moderno. Seus parâmetros são: (1) Desconfiança, (2) Tecnologia, (3) Economia, e (4) Guerra. Ele então faz combinações especulativas entre dois destes vetores de cada vez, ajudando a visualizar regimes geopolíticos e culturais consistentes (por exemplo, quando os dois pilares mais fortes são Desconfiança e Tecnologia, o que prevalece é uma postura Autoritarista; se forem Guerra e Economia, o que prevalece é o Imperialismo; e assim por diante).

 progenitor-superpowers-as-contagion-2qhnilv

Muitos devem saber que a lista de jogos abordando esta premissa é bem mais longa (tenho alguns outros), mas estes seriam os meus favoritos. E enquanto “estudava” para montar os pilares de meu cenário – em muitas partes pegando carona no que acho que funciona nos outros cenários, descartando o que não gosto, e seguindo daquele ponto – eu fiz algumas ponderações sobre todos aqueles critérios: misturei alguns, ajustei outros, descartei uns, e dei outra interpretação para outros. Me ajudaram e muito a dar o pontapé inicial e refinar minha ambientação.

 Então, hoje trago alguns parâmetros que, se considerados com carinho, podem ajudar a criar um cenário com supers mais convincente e fértil.

 1 – DIVERSIDADE

A primeira coisa a ser considerada é sobre quantos tipos de supers existem. Em cenários clássicos, como os Universos Marvel e DC, é comum termos supers tecnológicos, nscidos com poder, frutos de experimentos genéticos, alienígenas, místicos, e qualquer outra coisa que os autores conseguirem colocar na panela.

 Quando você começar a pensar no seu cenário, procure pensar se vai conseguir (ou querer) lidar com tantas fontes de origens assim. Às vezes, restringir as fontes de poder ajudam a deixar um cenário mais fácil de trabalhar. Aberrant, por exemplo, tem apenas uma fonte de poder: uma glândula que brota no lóbulo central de algumas pessoas e os capacita canalizar e manipular as forças quânticas do universo.

 Embora isto também retrinja de certa forma a existência de alguns poderes, traz mais consistência geral, uma certa lógica prática e identificável para a ambientação. Além de deixar as coisas mais misteriosas e intrigantes quando, ocasionalmente, aparecer um antagonista com poderes inexplicáveis e exclusivos.

 Por outro lado, com mais variedade, há menos coisas para limitar a criatividade dos jogadores. Além disto, múltiplas fontes trazem abertura para trabalhar sub-tramas mais dedicadas. No Universo Marvel, por exemplo, os mutantes vivem dramas muito semelhantes com os de minorias étnicas; no Universo DC, heróis envolvidos com magia estão sempre lidando com ameaças demoníacas extra-dimensionais. No seu cenário, você poderia ter personagens com poderes tecnológicos envolvidos com polêmicas geoplíticas como controle de armas e acesso a tecnologias avançadas para fins militares.

 Uma vez que você estabelece com que tipos de supers quer trabalhar em sua ambientação, você começa a traçar os primeiros contornos do seu cenário. Faça uma lista preliminar, e acrescente ou retire itens de acordo com preferência e necessidade.

 2 – MORALIDADE

Muitas vezes, quando pensamos em supers pensamos em super-heróis: pessoas dotadas de forte senso moral, dispostas a passar por grandes sacrifícios pessoais em nome do que é certo, justo e bom. Aqueles que não acreditam neste estilo de vida geralmente pegam a contra-mão, e assim nascem os super-vilões, acidentalmente ou não.

 Se formos levar em conta aqueles que estão na fronteira entre o herói e o vilão – os chamados anti-heróis – temos personagens que seguem suas próprias leis e justificativas, mas usam métodos vilanescos para fins heróicos. Paciência!

 Porém, algumas ambientações não trabalham com heróis e vilões, e O Lado Sombrio se enquadra neste tipo. Trata-se de pessoas superpoderosas, mas o foco fica em ‘pessoas’. Isto significa que o fato de ter poderes não torna uma pessoa necessariamente boa ou ruim, nem traz uma mudança moral inerente. Em OLS isto é ainda mais agravado, dada a natureza dos poderes (são como entidades hospedadas na psiquê dos personagens, fomentando sua natureza mais sombria, e apenas este lado dos personagens tem acesso aos poderes).

 Decida se a linha entre o bem ou mal é bem clara, se aqueles atuando em sintonia com a lei e os governos serão tratados como heróis do povo, e se aqueles com agendas próprias que geralmente interferem no bem estar geral serão tratados como vilões. Ou não, deixe no ar e deixe que as escolhas pessoais (e também suas consequências!) sejam a ordem do dia. Este é o caminho que adotei para O Lado Sombrio.

 3 – INÉRCIA HISTÓRICA

Esta é mais uma escolha clássica: qual o envolvimento dos supers em grandes eventos históricos. Dependendo de qual ponto na História os supers de seu cenário começaram a atuar, sua participação em momentos pontuais podem mudar completamente o mundo moderno. Já pensou?

 Em Watchmen vemos como a participação de pessoas superpoderosas em conflitos entre nações pode pesar na balança, mudando os rumos da Guerra do Vietnam e da Guerra Fria. No Universo Marvel, os heróis ajudaram na procura por sobreviventes do Onze de Setembro e na reabilitação da cidade, mas não impediram o ocorrido. No Universo DC, já vi a Liga se meter com ditadores africanos em mais de uma circunstância.

 Se quiser se poupar de muitas horas de estica-e-puxa com a História, pesquisando os eventos mais relevantes para seu cenário, sobre a intensidade da participação de supers, e sobre como isto mudou o rumo das coisas, a dica é bem simples: comece a linha cronológica num ponto futuro.

 Uma última coisa a considerar é: escolha um evento importante (ou nem tanto), e use-o como ponto de partida! A partir dali, pessoas com poderes começam a pipocar mundo a fora. O Lado Sombrio segue um caminho parecido: na ocasião do fim do mundo anunciado para 2012, um evento misterioso evento desengatilha um fenômeno seletivo e… bom, isto ainda é segredo.

 4 – IMERSÃO CULTURAL

O próximo passo é definir como a sociedade em geral lida com superpessoas. Levando em conta alguns dos critérios acima, é possível delinear como os supers se encaixam. Se a questão moral (visto no item 2) for bem desenhada, a opinião pública pode ser mais receptiva para os reconhecidamente heróicos, e mais agressiva em relação aos vilanescos.

Questões como preconceito racial, culto de celebridades instantâneas e até mesmo alegações de cunho religioso podem e devem apimentar a ambientação. O ser humano tem como comportamento padrão hostilizar aquilo que é diferente, seja sua fé, cor de pele, opção sexual, classe social, e a lista segue. Este é um dos lados que precisam ser levados em conta, sendo que dosar cada ingrediente (ou quem sabe espalhar a presença de certas questões ao redor do mapa).

Um outro lado que pode ser explorado diz respeito às oportunidades dadas a estes supers. Voltando a Aberrant, os supers do cenário são geralmente idolatrados como ídolos, maiores que qualquer Lady Gaga ou Lionel Messi, Beatles ou Bruce Lee. O fato de ter poderes lhe eleva ao sucesso automaticamente, e isto tem um peso imortantíssimo no cenário: ninguém sente a necessidade de sair fazendo merda com os poderes (tipo assaltar bancos e joalherias) porque alguém com poderes é disputado por patrocinadores, governos e empresas (uma das primeiras a contratar um super oficialmente no cenário foi a Microsoft), com salários exorbitantes e a vida ganha para sempre. Tudo isto sem se meter com qualquer tipo de atividade humanitária – aqueles que se filiam a equipes de resposta a tragédias e crises internacionais tem salários ainda maiores.

Decida qual o nível de aceitação geral em relação aos supers. Isto vai ajudar a estabelecer sua presença em setores como entretenimento (como canais dedicados a reportagens sobre supers, ou o uso de poderes na produção de filmes), moda, religião (qual o posicionamento do Papa em relação aos supers?; há fanáticos religiosos que pensam que supers são demônios enviados para nos desviar do caminho?); e Leis. Será preciso pensar em como A Lei vai lidar com o uso de poderes mais difíceis (como telepatia), e como estes serão tratados num tribunal, por exemplo.

Mas se seus supers estão na obscuridade, vivendo nos bastidores – como é tão comum nos cenários envolvendo o sobrenatural, então você vai precisar pensar nas leis próprias deste segmento social. Se os humanos vivem na ignorância, quem fiscaliza e pune infratores? Num mundo repleto de cameras e conexões internéticas, como é possível manter o uso de poderes escondido?

Filmes como Push (no Brasil, “Heróis”) mostra uma camada da sociedade dedicada a pessoas com poderes, mas estas geralmente estão envolvidas com agências governamentais ou máfias, sendo poucos os que agem por conta própria, e a população humana em geral não tem conhecimento de sua existência. Postei uma adaptação deste cenário para meu sistema Highlights neste mesmo blog, anos atrás.

5 – IMPACTO GEOPOLÍTICO

E por fim, dependendo de quem sabe sobre os supers e quais oportunidades lhes são oferecidas, você pode começar a traçar um roteiro sobre como o nível de qualidade de vida mudou numa dada região por conta da participação dos supers, seja este fato conhecido do público geral ou não.

Supers podem ajudar a reduzir os índices de criminalidade, reforçar as fileiras de operações militares (‘Black Ops’ ou legítimas), e aqueles com intelectos geniais certamente contribuirão para o surgimento de novas tecnologias (quem sabe para trazer avanços biomédicos e purificar ecologia?), e até criar programas econômicos capazes de tirar um país da lama.

Com isto, países menores e geopoliticamente mais fracos podem se organizar e ganhar um lugar de destaque entre as grandes potências. Um time de supers patriotas pode inspirar jovens, intimidar os corruptos e orgulhar os mais idealistas. Este mesmo time (ou outros) podem se dedicar a defender as fronteiras do país ou ajudar nações aliadas em disputas internacionais.

Seria lógico estabelecer uma população de supers distribuidos proporcionalmente pela densidade demográfica, certo? Consegue imaginar quantos chineses ganhariam poderes? Consegue imaginar o que isso causaria no tabuleiro geopolítico mundial? O poder de barganha, de ditar o destino econômico e político de continentes inteiros, a balança de poder no conselho das Nações Unidas? Sabe o que seria um toque super interessante (perdão pelo trocadilho)? Ignore uma distribuição logicamente proporcional! Pegue uma pequena nação sulamericana (ou nos confins do Oriente Médio!) e dê-lhes muitos supers. Por outro lado, faça com que nações populosas e poderosas (sim, me refiro aos EUA) tenham pouquíssimos supers, de modo que tentem sabotar os programas estrangeiros ou ganhar sua confiança e usá-los como marionetes.

Encare assim: no mundo de hoje, aqueles com tecnologia nuclear estão no topo da pirâmide, e a simples possibilidade de poder despejar essa ira devastadora sobre um desafeto ajuda a manter o status quo (lição aprendida com a Guerra Fria, né?). Agora, substitua poderio nuclear por supers. Voilá! Tem em mãos um poder muitas vezes tão devastador quanto, porém mais pontual, com menos efeitos colaterais, e que ainda faz pose para as cameras. E nas mãos de ditadores tirânicos em nações do terceiro mundo, amigo, é pano pra manga.

CONCLUINDO

É claro que há trocentas outras características que podem e precisam ser levadas em conta ao elaborar um cenário com super-humanos (note que nem mencionei exploração espacial!). Na melhor das hipóteses, este post vai lhe ajudar a organizar as ideias ao desenvolver um cenário próprio com supers; na pior das hipóteses, você não achou nada demais, mas achou a leitura construtiva. O que vale é que no nosso passatempo, nenhuma ideia é ridícula nas mãos de pessoas criativas e dispostas.

Grande abraço, e bons jogos!

Anúncios

2 comentários sobre “Criando Seu Mundo de Supers”

    1. Também sou muito fã de supers, e coleciono a maioria dos jogos dedicados ao tema. Mas na hora de jogar, tenho muita dificuldade em seguir a dinâmica dos quadrinhos, como um “polícia e ladrão com roupas coladas e coloridas”. Sei lá, acho meio bobo para jogar, mas não para ler ou assistir.

      E o pessoal com quem jogo pensa parecido. Ainda assim, estamos nos preparando para experimentar o Marvel Heroic RP, e já estou estudando o módulo para Guerra Civil. Vamos ver no que dá!

      Quanto ao meu cenário, estou desenvolvendo aos poucos, colocando as ideias no papel e dando um tempo para digerir e amadurecer. Tenho uma grande preocupação em não cair nas armadilhas dos clichês, e terminar com um cenário fraco e sem apelo só porque estou muito afim de terminar logo.

      Obrigado pelo interesse, e de vez em quando dê uma passadinha por aqui, pois vou estar sempre pingando detalhes sobre o que estou tramando!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s