Diário de Design: O Lado Sombrio – O Gênio Malvado

A primeira vez que considerei um cenário como O Lado Sombrio, eu nem o associei a um jogo. Era uma brincadeira bem íntima, ensaios de situações do dia a dia que ficavam passando e repassando na minha cabeça a partir de observações do cotidiano: as notícias desagradáveis na TV, os incômodos da convivência com pessoas egoístas e desrespeitosas, o conflito entre o estilo de vida violento e sufocante e uma utopia em que as pessoas se respeitam e se ajudam. Enquanto eu digeria essas situações, me pegava imaginando o que eu faria se tivesse condições de fazer valer a minha vontade e mudar aquele contexto, como era tão comum nas aventuras de rpg: o poder de fazer a diferença. Mais divertido ainda se fosse de forma sobrenatural. Minha conclusão foi fulminante: não ia prestar. Eu certamente iria abusar deste poder, me deixaria levar pela sensação de tudo-posso, e esmagaria qualquer oposição sumariamente e sem perder noites de sono por isso.

Acredite no que quiser, amigo, mas a natureza humana é uma coleção de caprichos, vaidades, ambições e medos. Somos movidos a todo o tempo por estímulos, e nos vemos frustrados e impotentes quando as circunstâncias bloqueiam nosso sucesso. Esta frustração, esta angústia, este inconformismo, com o passar do tempo se acumula e lapida uma parte de nossa natureza que preferimos esconder, uma parte rancorosa, vingativa e invejosa que, se pudesse, faria “justiça” com as próprias mãos (sem duplo sentido, por favor!). Este, senhoras e senhores, é nosso Lado Sombrio.

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E foi aí que surgiu a ideia para um cenário de jogo. Uma ambientação onde algumas pessoas despertavam poderes sobrenaturais que os permitissem virar o jogo e fazer história, mas sem transformá-los em super-heróis. Pessoas comuns com imenso poder em suas mãos, mas um poder intoxicante, compulsivo, reconfortante e — principalmente — perigoso. Não porque os poderes não sejam confiáveis, mas justamente pelo motivo oposto: poderes tornam tudo mais fácil, mais prático, e melhor.

Mas e se a relação entre um paranormal e seus poderes fosse de constante conflito? E se estes poderes tivessem personalidades próprias, competindo constantemente pelo controle daquele corpo? Quando comecei a rascunhar o jogo, decidi que a escolha dos poderes de um personagem (incluindo quantos poderes gostaria de ter e em que intensidade) ficaria por conta dos jogadores, com a pegadinha de que cada poder teria um monitor de força de vontade individual e o jogador deveria disputar o controle das ações (consigo mesmo!) sempre que pensasse em usar um de seus poderes. Seria como se em um ombro tivéssemos aquele anjinho do bom senso, representando o próprio personagem, e no outro ombro um diabinho da tentação para cada poder que tivesse!

Mas no ponto de vista prático do jogo ainda me parecia que tinha coisa demais acontecendo ao mesmo tempo. Fiz então uma escolha que tornou tudo mais simples: os protagonistas de O Lado Sombrio possuem natureza dupla (não muito diferente do incrível Hulk, apenas sem a desfiguração física). De um lado, você tem sua própria identidade, velha de guerra a qual está mais do que familiarizado; do outro, tem a Escuridão interior, sua versão alienígena e incontrolável. Por ironia do destino, é apenas a Escuridão quem tem acesso aos poderes…

duality

E é isso que torna a vida dos paranormais ainda mais cheia de adrenalina. Temos um mundo ciente de sua existência, com muitos destes paranormais em evidência na sociedade em âmbito global, participando da vida pública, contribuindo para tornar o mundo um lugar melhor, mas ninguém sabe que estas pessoas tão especiais são bombas-relógio ambulantes. Sempre que recorre a um de seus poderes, um paranormal precisa dosar sua intensidade conscientemente, pois abre mão do controle metódico sob o qual mantém seu lado obscuro. De certa forma, estas migalhas de liberdade provocam sua segunda natureza, como uma fera que vê a grade de sua prisão aberta, mas continua acorrentado à parede dos fundos. Em algum momento, esta corrente se romperá, e quando isso acontecer, o Lado Sombrio assumirá e o paranormal só saberá o que fez quando voltar ao controle. E aí precisará conviver com o remorso do que fez quando estava “fora do ar” e ainda arcar com toda a responsabilidade dos atos de seu gênio malvado.

Portanto, nada de heróis em O Lado Sombrio, pelo menos não no sentido clássico. Os paranormais que lutam sem descanso para manter sua Escuridão sob controle, são verdadeiros protetores da humanidade. Mas há aqueles que já perderam a batalha interior, e agora são manifestações vivas de pesadelos disfarçados de celebridades e tiranos.

Bem-vindos ao mundo de O Lado Sombrio.

i-duality


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