Meu Problema Com o Mestre!

O que há num simples nome?

O que chamamos rosa com outro nome não teria igual perfume? 

Tendo evocado Shakespeare, logo de cara, permitam-me esclarecer que não se trata de uma birra contra uma pessoa específica, nem contra a função em si. Meu desconforto é com o termo mesmo. Entendo que provavelmente seja uma herança dos primórdios de nosso hobby, uma apropriação adotada pelos primeiros designers, passada através das gerações por simples comodidade ou tradição, e trazida pro português por carona. Hoje até é bastante comum ver o termo mestre ser deixado de lado em favor de termos mais evocativos e em sintonia com a proposta dos seus jogos, e esta é uma abordagem que me agrada.

Dentre os termos com que já cruzei, posso citar (as traduções são livres!):

  • Narrador (Storyteller; Narrator)
  • Mestre da Masmorra (Dungeon Master; DM)
  • Mestre de Cerimônias (Master of Cerimonies; MC)
  • Guia (Guide)
  • Moderador [do Jogo] (Game Moderator; GM)
  • Guardião (Keeper)
  • Condutor (Conductor)
  • Árbitro (Referee)
  • Juiz (Judge)
  • Deus Malva-Rosa (Hollyhock God, eu juro!!!)
  • Supervisor
  • Diretor (Director)
  • Delegado (Marshall)
  • Administrador (Administrator)

E mais uma penca!

Quando penso em um ‘mestre’, a ideia pessoal que faço é sim a de alguém que merece respeito, que tenha dedicado boa parte de sua vida para dominar vários aspectos de uma área de atuação, que atua como uma autoridade naquela arena, e que na verdade é apenas um título usado para destacá-lo dos demais, menos versados. Ou seja, eu entendo perfeitamente o porquê da escolha e popularização do termo, mas ainda assim não consigo encaixá-lo em meu vocabulário de jogo de forma natural.

A primeira vez que percebi este desconforto foi num dos verões que passei em Cabo Frio, em meados dos anos 90. Eu já jogava rpg, mas foi a primeira vez que descobri outros rpgistas no condomínio que eu costumava ficar. Nos primeiros dias, conversamos bastante sobre nossas preferências e experiências, e já no primeiro fim de semana a jogatina começou pra valer. Um de nossos colegas, no entanto, se mostrou bastante desconfortado com o uso do termo ‘mestre’ por parte do grupo. Sua justificativa era que pra ele só havia um mestre, e este era Jesus. O grupo prontamente respeitou seu apelo, e passamos a chamar o jogador responsável pela aventura de “O Cara”. Aquele verão foi bastante proveitoso em termos de jogo, e aquilo que o colega trouxe à tona ficou ecoando em minha cabeça por dias.

Embora ninguém jamais tenha me acusado de ser pedante, eu tenho plena consciência de que sou bem chato com a escolha das palavras que uso e, no que diz respeito a nomear conceitos em jogos, acho que sou ainda mais chato. Talvez por isso, quando alguém pergunta “E aí, quem vai mestrar?“, ou “Que sistemas você mestra?”, eu me pego no desconforto.

Sem dúvidas o jogador que fica responsabilizado pelos bastidores e desenrolar das aventuras mereça seu destaque, nem que seja apenas para ser aquele que organiza a mesa e põe ordem na casa, ajudando a resolver disputas pessoais e tal, mas daí a chamá-lo de mestre é um pouco pesado pra mim. Talvez seja incompatibilidade com minha natureza rebelde, vai saber.

Para alguém acostumado a associar um “mestre” a conhecimento aprofundado e muitas vezes capacidade de passar aquilo que sabe, por algum motivo idiota que seja, minha mente rabugenta tem dificuldades em associar ‘mestres’ a nossos jogos de contar histórias. Eu consigo visualizar um “mestre em contar histórias”, um “mestre no assunto x”, um “mestre artístico”, mas para um passatempo, não.

Para meus jogos de rpg, eu quero um termo que evoque melhor o papel daquele jogador diferenciado. Eu quero um termo que reflita sua posição de canalizador do grupo, o condutor da trama, o editor das cenas, o juiz dos impasses, o improvisador criativo, o ator que dá vida aos coadjuvantes, ao espectador que vibra com as boas sacadas dos jogadores, o especialista nas regras, o estudioso do cenário. Pensando bem, um cara que consiga se desdobrar em tantas facetas e ainda divertir um grupo de amigos, dedicando seu tempo e energia para criar histórias que serão lembradas pelos anos que virão, mereça mesmo um título nobre, algo a ser invejado e desejado, que inspire o respeito merecido.

“Mestre” certamente se qualifica, e eu provavelmente nunca encontrarei um termo que me traga paz de espírito definitiva. Então a busca continua, e até lá, mestre ou narrador, moderador ou condutor, guia ou diretor, que meus jogadores me chamem pelo nome.

Será que só eu tenho essa nóia? Como você se sente sobre o assunto? Ou nunca parou pra pensar nisso?

Bons jogos e boa semana!

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2 comentários sobre “Meu Problema Com o Mestre!”

  1. Espero que você não tenha jogado com “certas” pessoas quando veio aqui pra Cabo Frio, haha.

    Assim… Respeito a escolha das pessoas devido à sua religião ou modo de pensar. Mas tem coisas que, levadas ao pé da letra, são apenas exagero.

    Por exemplo, só Jesus é Mestre. E os universitários que concluíram o mestrado? O cara lá vai deixar de usar o título correto por causa dessa idiossincrasia?

    Eu vejo mais o mestre mais como o cara daquela brincadeira de “siga o mestre” (que nosso amigo do condomínio não deve mais se sentir confortável em brincar): ele é apenas um guia, uma pessoa que dá o norte. Muito do que ele “é” não é definido pelo nome que lhe dão, mas pela sua atitude em relação ao jogo e os jogadores.
    Palavras são vento, o que vale é a atitude.

    Desculpe pelo comentário imenso 🙂

    1. Excelentes argumentos, concordo em tudo! Engraçado, nunca tinha visto pelo lado do “siga o mestre”, é uma perspectiva bastante coerente (e totalmente dentro do contexto de um jogo).

      Valeu pelo insight! (E não esquenta com tamanho não!)

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