SEGUNDA ETAPA DO DESIGN DE O LADO SOMBRIO

Enquanto termino de traduzir o primeiro episódio de “The City by Night”, uma série estilo HBO sobre vampiros em San Francisco/ Califórnia, jogada exclusivamente por fórum e meu primeiro contato prático com DramaSystem de Robin Laws, também vou amadurecendo as ideias para O Lado Sombrio.

Na primeira etapa, o sistema de regras de O Lado Sombrio foi sendo lapidado a cada sessão, chegando num formato limpo e elegante, confirmando que a ideia por trás do jogo funciona em regras. Agora, é hora de re-avaliar o material e torná-lo mais focado nas premissas centrais e eliminar o excesso de regras e informação. Preciso me lembrar que não se trata de um sistema genérico, mas um com um tema bem específico e uma intenção de experiência de jogo direcionada.

No jogo, contamos as histórias de pessoas comuns que, como todo mundo, possuem um lado sombrio que é alimentado diariamente por frustrações, medos e revoltas, e justamente por isso o escondemos dos outros. Só que por algum motivo, esse lado sombrio evolui para uma segunda personalidade dotada de habilidades sobrenaturais. Esse poder representa um dilema: o sobrenatural torna tudo muito mais fácil e tem grande apetite, e por isso recorrer a este recurso fortalece a dominância da personalidade secundária, e o indivíduo corre sério risco de ver sua identidade sendo substituída gradualmente por uma versão sinistra e deturpada de si mesmo (além de ser assustadoramente poderosa).

O Lado Sombrio é para ser um jogo de drama e horror pessoal, uma experiência sobre a corrupção e intoxicação pelo poder. Ah, claro, e também sobre múltiplas personalidades.

Dentre as diversas inspirações para este jogo, destaco:

Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde: escrito na era vitoriana, este romance gótico narra o drama do médico Henry Jekyll, cuja segunda personalidade (Edward Hyde) é uma manifestação física de seu lado mais sombrio e enrustido. Não sei se Stan Lee já admitiu isso, mas certamente é um antecessor do incrível Hulk, que segue a mesma linha.

Chronicle: lançado em 2012 e conhecido no Brasil como Poder Sem Limites, o filme é um diário em video das desventuras de 3 jovens: Andrew, um desafortunado que leva uma vida sofrida (pai bebe demais, mãe com doença terminal, sofre bullying direto), seu primo e único amigo Matt, e Steve, um dos caras mais populares da escola. Os três entram em contato com um item misterioso e desenvolvem telecinese. Embora no começo eles só utilizem sua habilidade para diversão e pequenos ganhos pessoais, com o tempo Andrew começa a abusar de seus poderes, usando-o como escape para todas as suas frustrações. Vale a conferida!

Do No Harm: embora a série tenha demorado um pouco pra me fisgar, acompanhei até o fim simplesmente pela premissa. O brilhante neurocirurgião Jason Cole possui um alter-ego sociopata, chamado Ian Price, e cada um fica ativo exatas 12 horas por dia. Para o contexto de O Lado Sombrio, a mudança de caráter e atitudes quando cada personalidade está ativa é um prato cheio de inspiração.

O Lado Negro da Força: esse eu não poderia deixar de mencionar. Qualquer fã de Star Wars sabe que o poder místico da Força é sempre mais poderoso quando usado de forma egoísta, passional e abusiva. Tudo fica mais fácil quando se usa seu poder sem freio morais, mas isso é viciante e nubla o bom senso. Perfeito!

Então, já prevejo que algumas coisas nas regras para personagens precisarão de ajustes e mais direcionamento – e até releituras completas – para que jogo funcione da maneira ideal. E para ajudar a trazer consistência ao conjunto de regras, mudei de ideia sobre não ter uma ambientação oficial. Bom, pelo menos parcialmente. O plano agora é experimentar transferir aquela premissa de O Lado Sombrio para “vinhetas” de cenário em gêneros diferentes, e até agora já comecei a rascunhar quatro opções. A ideia das vinhetas vem de jogos que se colocam no meio da discussão sobre “cenários ricos e estabelecidos” e “cenários criados durante o jogo”. Ou seja, é oferecido um ponto de partida consistente e a partir dali é o grupo de jogo quem retrata o mundo.

O primeiro se chama Neo Panteão, e será uma versão sombria de super-humanos e o culto da celebridade. Neste cenário, os protagonistas ganham importância numa nova configuração geopolítica e cultural, considerados artigos de luxo pela mídia e pelos corpos governamentais. Até que ponto a pressão dos holofotes vai influenciar na batalha interior de cada personagem? E se o lado sombrio finalmente ganhar, será que os protagonistas se tornarão riscos para a sociedade?

A segunda vinheta de cenário se chama Entre Deuses e Monstros, usando um mundo de alta fantasia onde deuses e lendas caminhavam entre os mortais como visto em inúmeros contos mitológicos. Porém, após uma batalha épica no plano divino, o acesso dos deuses ao mundo dos mortais foi bloqueado. Por outro lado, algumas criaturas oriundas de pesadelos ficaram presas aqui com os mortais. Sentindo que definhariam e morreriam se não fizessem nada a respeito, os deuses juntaram forças e tentaram derrubar a barreira, com quase nenhum sucesso. Quase, porque a barreira ganhou brechas, e através delas alguns deuses se sacrificaram ao distribuir sua essência divina entre alguns mortais, tornando-os semi-divinos e os novos campeões da humanidade. Aqui o Lado Sombrio representa a força da personalidade dos deuses, tentando dominar seus hospedeiros e assim voltar a desbravar o plano mortal sem concorrências.

Além do Véu é a vinheta sobre fantasia urbana, e aqui o Lado Sombrio é uma representação palpável do lado sobrenatural de sua natureza: para vampiros, é a fome; para licantropos, é a bestialidade; para bruxos, é hubris. E assim por diante. As diversas etnias sobrenaturais co-existem em delicada trégua, mas a instabilidade de suas naturezas sombrias pode deflagrar uma guerra a qualquer momento.

E por fim, Transcendência é a vinheta dedicada a ficção científica. Num futuro próximo, algumas pessoas são infectadas com uma doença misteriosa, que ao invés de debilitá-las as torna mais fortes. Tudo indica que esta condição é de origem alienígena, mas estudiosos ainda não conseguiram uma explicação definitiva: simbiontes, anomalias genéticas, superdesenvolvimento psíquico e até viajantes de um tempo mais evoluído são apenas algumas das teorias que ganham força a cada semana. A verdade é que a segunda natureza enxerga o mundo e a sociedade de forma alienígena, e a longo prazo sua adaptação aos nossos padrões pode se mostrar um desafio que simplesmente não vale a pena.

Muito trabalho pela frente, mas cada dia mais empolgado com os resultados. Aguardem novas atualizações!

Boa semana e bons jogos!

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